A verdade precisa ser dita. O projeto apresentado pelo deputado João Campos (PSDB-GO) em nenhum momento fala em cura de homossexuais. O apelido usado como forma de combater a proposta pegou e rotulou a iniciativa. O que se pretendia na verdade era liberar psicólogos para atuarem junto a pessoas que, por iniciativa própria, quisessem rever sua condição sexual ou até sublimá-la. Visava revogar dois artigos da resolução do Conselho Federal de Psicologia que impedem a atuação de psicólogos em situações que sugiram reversão da homossexualidade. Assim, o projeto tinha sua razão de ser. Suprimir essa proibição realmente faz-se necessária. Afinal, é tão evidente a ineficácia da intervenção clínica no assunto que parece redundante manter tais determinações. O mesmo despautério ocorreria se o egrégio conselho decidisse proibir os profissionais a atuarem na cura hétero. Imagine um heterossexual buscando ajuda para se tornar gay. Até o mais sério psicólogo acharia risível tal solicitação.
O passado justifica tamanha celeuma na comunidade gay quando se sugere cura. A Organização Mundial de Saúde (OMS) retirou, faz pouco, a homossexualidade do rol de doenças da mente (1990). Interessante imaginar porque entrou. Então, é razoável que, nas profundas trevas vivenciadas por alguns deputados, seja possível acreditar que o projeto fosse importante e mudasse significativamente a vida dos brasileiros. Discussão ridícula e inócua. No entanto, o enfrentamento foi necessário porque é preciso enxergar o que vem na órbita da proposta. Ainda vivemos em tempos de garantir, pelo excesso, a liberdade. Quando discutimos a internação compulsória de viciados em crack, uma brecha dessas poderia justificar atos semelhantes com os homossexuais no arrepio da lei. Um congresso capaz de impedir a criminalização da homofobia pode fazer coisa muito pior. Com a decisão do parlamentar de retirar o projeto tudo volta à estaca zero. Ou seja, quem quiser ir ao consultório para mudar suas inclinações naturais que o faça. Nunca foram impedidos. Mas não alimente falsas esperanças. Quem conhece a fábula do sapo e do escorpião entende a impossibilidade de mudarmos a natureza das coisas.
O tal deputado presidente da Comissão de Direitos Humanos, que se autointitulou defensor da família e dos princípios cristãos, não aceitou bem o fato. Fez ameaças e avisou que o assunto voltará com ainda mais força. Na prática, avisa que mais energia, tempo e dinheiro serão desperdiçados com o assunto. O clamor das ruas não invadiu os tímpanos do nobre legislador. O Brasil precisa de mais saúde, educação, segurança e mobilidade urbana. Pouco interessa como cada um vai viver sua sexualidade. O incrível é saber da possibilidade do vaticínio de Feliciano ser verdadeiro. A bancada dos néscios que o acompanha vai dobrar. E colaborarão com esse projeto perverso os eleitores indiferentes ao andamento desses embates no congresso nacional. Não basta somente votar consciente. É preciso combater as candidaturas comprometidas com o retrocesso.

